Por Camila Carvalho

Na noite dessa segunda-feira (13), na décima edição da Semana Jurídica do Icesp, o palestrante convidado foi o mais jovem advogado do Brasil, Mateus Costa Ribeiro. Ele falou sobre a trajetória para fazer um dos cursos mais concorridos do país e do porquê estudar direito no século XXI. A palestra foi realizada no auditório do campus Guará.

Mateus entrou para a faculdade de direito aos 14 anos e se tornou advogado com apenas 18 anos. Fez história ao ser reconhecido como o mais jovem advogado do país a defender um caso na tribuna do Supremo Tribunal Federal. Também já ganhou um prêmio, entregue na Universidade de Yale (Estados Unidos), por ter ficado entre os 10% melhores alunos do programa para superdotados do Center for Talented Youth, Universidade Johns Hopkins.  Além disso, se dedica a um canal no Youtube, chamado ‘’Estude Menos”, onde aborda assuntos relacionados ao direito e dá dicas de estudos para os interessados na área.

Apesar do brilhante currículo, Mateus recusa os títulos de gênio e doutor, prefere ser chamado apenas pelo primeiro nome. “Quem é doutor, é quem tem doutorado” (risos), brinca.

Durante a palestra, diversos assuntos foram abordados. Mas o palestrante deixou uma recado aos alunos de Direito do Icesp. “Se tiverem que levar algo pra casa hoje é isso: o direito se opera no plano do discurso. O discurso é o principal argumento. No direito existem quatro partes: um problema, uma regra, argumentos e uma conclusão”, disse.

Segundo ele, quem estuda direito é colocado em um posição de influenciar vidas. “Quem estuda direito e aprende a construir argumentos é colocado em uma posição social de conseguir influenciar a vida de uma pessoa, possivelmente a vida de milhares de pessoas. No mundo de casos difíceis faz muito sentido estudar direito porque por meio do estudo, você ganha capacidade de aproximar o direito da justiça.  O direito não tem nada a ver com a justiça, o direito tem a ver com uma instituição socialmente consolidada, que tem autoridade para impor regras jurídicas e para determinar o funcionamento da sociedade, de maneira vinculante, inclusive com força policial, executando suas decisões. Mas à medida em que essas determinações do poder constituinte são vagas, cabe ao operador do direito argumentar para que lado vai essa previsão legal e neste momento, quem estuda direito tem a possibilidade de influenciar positivamente a vida das pessoas”, declara.

Os alunos de direito do Icesp ficaram lisonjeados com a presença do jovem advogado e comentaram sobre a participação dele na Semana Jurídica. A aluna do quarto semestre do curso, Ramilla Sampaio, classificou a palestra como excelente. “É muito bom ter esse tipo de estímulo de alguém tão novo, mas com tanto conhecimento. Posso dizer que tanto eu, como meus colegas de turma, saímos mais motivados e inspirados em nossos sonhos. Um muito obrigada à faculdade por nos proporcionar esta noite”, conclui.

Programação:

14/05

Manhã: Os palestrantes foram a professora Kênia Nogueira, com o tema “Sentenças exemplificantes da Corte Interamericana  de Direitos Humanos” e o professor Danilo Ribeiro, que falou sobre “O direito humano fundamental à moradia como mínimo existencial – condição de possibilidade e sua efetivação à luz da lei nº 13.465/ 2017

Noite:  os palestrantes são o professor Pedro Andrade, com o tema Associativismo militar no Brasil: tentativas reprimidas da liberdade de associação de praças das Forças Armadas nos séculos XX e XXi”, e o professor Rômulo Pinheiro, com o tema “Relações entre Alemanha e Polônia no período entre-guerras”.

ENTREVISTA COM MATHEUS COSTA RIBEIRO  

Ascom: Quais as suas metas para o futuro?

Mateus: O meu projeto para o futuro é permanecer na advocacia. Existem diferentes níveis da advocacia, você pode atuar em causas que cada vez mais relevância, de maior interesse para o país. E esse é meu objetivo, de me especializar, fazer mestrado, doutorado, possivelmente começar a dar aula e aí sim começar a atuar como um advogado, que atua em causa de maior relevância, esse é meu objetivo a longo prazo.

Ascom: Você se considera jovem para atuar na advocacia?

Mateus: Desde que peguei minha carteira, aos 18 anos, eu nunca duvidei da minha capacidade, tanto que eu sempre fui atrás de grandes casos, nunca me limitei pela minha idade. Você tem uma responsabilidade a mais de ter que provar que é capaz de atuar em grandes casos mesmo sem ter anos de vida e de advocacia, mas eu consigo lidar com facilidade com essa espécie de pressão.

Ascom: Você entrou para a faculdade aos 14 anos, teve que abrir mão de muitas coisas para estudar direito tão cedo?

Matheus: Com certeza. Toda decisão tem ônus e bônus. Você naturalmente é prejudicado em outros fatores e você também ganha muitos outros, por exemplo, o fato de estar aqui dando essa palestra, porque de alguma maneira a minha história destaca das outras histórias e isso é muito gratificante, mas pra ganhar esse reconhecimento de advogado jovem que tem uma atuação de sucesso eu tive que abrir mão de bastante coisa, parte de minha adolescência, de poder viver os 14 anos sem me importar com nada, eu abri mão um pouco disso, mas de uma maneira consciente. Isso é muito importante. Eu sabia que a minha vida seria diferente das dos meus amigos que ficaram na escola, mas eu queria ir pra faculdade, me enxergava mais na faculdade por isso nunca pensei duas vezes quando passei no vestibular.

Ascom: Então você já tinha esse objetivo de entrar antes na faculdade?

Matheus: Na verdade não. Isso surgiu seis meses antes, quando minha irmã foi fazer vestibular de direito, aí eu ia muito bem na escola então meu pai sugeriu, sem nenhuma pretensão, que eu fizesse também. E eu fiquei muito bem colocado, passei em sétimo lugar, mas ele preferiu que eu não entrasse porque eu só tinha 13 anos, então seis meses depois, a gente começou realmente a digerir essa ideia, refletir muito a respeito. E foi aí que eu fiz o vestibular da UnB (universidade de Brasília) e desta vez eu fiz o vestibular da UnB e quando eu passei eu já estava convicto que era melhor. Eu queria aprender direito, queria começar a trabalhar e começar a progredir, eu sentia que ficar mais quatro anos na escola não era pra mim.

Ascom: Você se considera um gênio?

Mateus: Acho que não. Um gênio? (Risos). Eu acho que o diferencial na minha vida foi eu ter uma maturidade com relação aos meus objetivos. Isso que facilitou. Não é uma capacidade intelectual acima da média, eu até não era um bom aluno na escola desde início, comecei a progredir a partir da sétima série, aos 12 anos. Antes disso, eu era um aluno muito “medíocre”. Entrei na faculdade aos 14, então foi um progresso muito grande em dois anos. Eu acho que isso é uma prova suficiente que não sou um gênio, só uma pessoa que tinha um objetivo de fazer direito e bem instruído pelas pessoas que estavam ao meu redor, pelos meus pais que me indicaram o que eu poderia fazer. Eu até fiz teste de QI e meu QI não é acima da média, ele é um QI normal. O QI mais alto do mundo é de um porteiro de uma fazenda, no Arkansas, nos Estados Unidos. Porque, as vezes, você tem uma inteligência acima da média, ela te impede de ter uma inteligência emocional acima da média, e isso interfere no funcionamento do seu cérebro. Então eu diria que não sou um gênio, sou apenas uma pessoa com objetivos claros, prefiro colocar dessa maneira.

Ascom: Você costuma fazer coisas que os jovens da sua idade fazem, como assistir séries, ouvir músicas, sair com os amigos?

Matheus: Claro! Eu gosto muito de andar de Kart, de sair com meus amigos. Acho que é um grave engano achar que os estudos e vida social são incompatíveis. Minha série favorita era Game Of Thrones até essa última temporada pífia, absurda… enfim.

Ascom: Você já deixou claro que desde cedo tem interesse por direito, mas nunca pensou em fazer outro curso? Em um outra área?Matheus: Já pensei. Eu pensei seriamente em fazer engenharia durante muito tempo, porque eu era muito melhor em matemática do que em português, no colégio. Eu gostava muito de exatas. Aí eu acho que houve uma certa influência dos meus pais, que são advogados, minha mãe é professora de escola pública, mas ela também é advogada embora não exerça. Meu pai é advogado. Então acho que ter nascido num ambiente jurídico fez com que eu me encantasse pelo direito. Essa foi a grande diferença, então ainda que muito bom em exatas, gostasse muito de engenharia, preferi não cursar engenharia.